ESTRANHO


Levantando-se e olhando num espelho perigosamente encostado na parede, Gilmar se vê. Pardo, avermelhado do sol de ontem, por limpar tranqueiras no fundo do quintal, sob protesto, já que não queria. Mas na sexta, a intrometida daquela mulher de bolsa amarela havia entrado ali e achado pilhas e pilhas de lixo amontoadas. Ele havia ocupado a casa recentemente, depois de pagar dois meses de aluguel que o deixara liso. Não tinha como pagar alguém para fazer aquela força. Calçou uma bota que não tinha devolvido no serviço. As mãos tremiam ainda devido ao esforço do dia anterior, trabalhando como pedreiro. O pior tinha sido aguentar o chororô da filha, que não calava um minuto ao reclamar que não iria mais ao parque por causa da faxina involuntária. Lixo, lixo e mais lixo, arrumara um carrinho emprestado. Terminara às quatro da tarde, todo ardido de sol, cansado, com fome. A menina se virou esquentando a janta do outro dia ao micro-ondas. Ele nem sequer se deu a esse trabalho de comer. Ódio, raiva. A casa velha fedia a mofo e tinha infiltrações, mas pelo menos tinha um quarto só para si e podia receber a pimpolha quando viesse. A mãe nem chegava perto, mandava a avó trazer a menina. E vinham as duas a pé, aliás, tudo ali era a pé. Por mais que tentasse, ele jamais se afastou um quilômetro que fosse do círculo das pessoas que conhecia, era fácil terem acesso a ele e sua ex-namorada nunca deixaria de fazer a garota passar os fins de semana regulamentares com ele, para ter seus dias de folga e encontrar-se com o outro namorado. Odiava tudo aquilo. Odiava secretamente aquela menina, embora ela lhe fizesse sentir certa ternura, às vezes. Viu a barriga surgir na mulher, à distância, viu ela andar por aí grávida e depois com a menina no colo. E recebeu o pedido de pensão, que ele paga religiosamente. Mas a filha nunca foi sua de verdade. Chata. Catarrenta. Irritada. Chorona. Parecia evitar o contato com o pai, mesmo estando apenas os dois dentro de casa. Junto com a mãe, no entanto, era uma dependência e contato que o constrangia. Gilmar resolveu, não sabe o porquê, solicitar as visitas da menina, pensando que alguém a levaria de vez em quando para ele ver. A princípio chegava à casa da avó da menina, a real mãe substituta, chamava à porta e lá vinha a garota, vestida de qualquer jeito, às vezes suja, fedida à urina, às vezes doente. Ele a punha sentada na garupa da bicicleta Monark barra circular e a empurrava duas, três quadras até o quarto que alugava, distante quase dois mil quilômetros da casa de seus parentes mais próximos.
Ali, era impossível ficar com ela em paz, isso foi aumentando a sua irritação. Mas nem tinha tempo de tentar diverti-la. Passava fins de semana em filas de hospitais públicos, e depois velando o sono da menina convalescente. Seis meses depois resolveu deixar o quarto e alugou uma casinha, mas era muito longe. Voltou e alugou de novo o quarto, mas por um mês. Achou outra casa, e outro e outra e nos últimos cinco anos, aquela era a quarta ou quinta casa. Nesse meio tempo já tinha o que pôr dentro de uma. Havia o quarto da garota. Ela já tinha sete anos. Parte da chatice havia acabado. Ela já sabia montar na bicicleta e segurar firme, na verdade, ela já tinha uma bicicletinha que ele a havia dado, ambos vinham calmamente até chegar à casa dele, agora na mesma quadra, na rua oposta. Nessa casa, cansado, chateado e dolorido pelo esforço físico feito no dia anterior, Gilmar sentava-se na cama de solteiro, fazia questão de ter uma, e olhava para o espelho, enquanto o dia ia, minuto a minuto, se consolidando lá fora. Irritou-se ao olhar no relógio e concluir que não precisava ter acordado àquela hora. A garota era de sono pesado e tinha certa autonomia ali dentro da residência, ela saberia se levantar e comer, caso tivesse fome. Mas algo o inquietava, eram seis da manhã e nada fazia com que ele dormisse de novo.
Gilmar se via feio, ele se considerava assim e geralmente todos o consideravam também. Tinha um nariz largo de ponta afilada que apontava para baixo, era pardo e de cabelo curto, tão curto que nunca se soube se era liso, ondulado ou encaracolado. Magro, seu corpo parecia uma pamonha achatada, tinha uma súbita cintura e braços e pernas finas, apesar de fortes e competentes para o trabalho. Sua cor pardacenta avermelhava-se facilmente ao sol. Gilmar não tinha opiniões, não discutia as coisas, não se comunicava. Nunca era visto em companhia de quase ninguém. Um dia apareceu com essa garota, mãe de sua filha. Foi tudo muito breve. Gilmar não gostou dela, mas conseguiu inseminá-la. Azar, dizia ela às amigas. Duas vezes apenas. Uma no escuro, no quarto fedido dele, outra na casa dela, enquanto a mãe saía. Nem viu direito como era o troço dele, não teve beijo durante, só depois, ele beijava mal, dizia ela, fedia a sovaco e a chulé. Gilmar ficou triste quando ouviu aquilo. O quarto dele fedia mesmo. Mas era o mofo das paredes, ele não ficou ali muito tempo por medo de adoecer. Ele sempre estava limpo e cheiroso. Ela que era uma vagabunda. Pensou em fazer DNA da menina, mas não precisou. Ambos tinham marca idêntica, uma mancha em forma de mapa na omoplata direita. A menina herdara-lhe também o nariz feioso. Ela dizia também que o pinto dele era pequeno, isso o fazia olhar para sua genitália de cima para baixo toda vez que se banhava. Parecia tudo normal, ela que era uma puta sem-vergonha. Analfabeta. Ele pelo menos havia estudado até terminar o Ensino Médio na Educação de Jovens e Adultos. Já tinha quase trinta quando começou. Agora tinha trinta e cinco. Trabalhava de pedreiro. Era pedreiro e dos bons. Ele mesmo arrumava tudo naquelas casas alugadas, mas estava naquela havia dois meses e a falta de vontade de mexer nas infiltrações e limpar o quintal era imensa, a ponto de negligenciar esses cuidados. As chuvas chegaram e o mofo começou a surgir aqui e acolá, o quintal enchera de mosquitos por causa da água parada. Notificado, resolveu botar o lixo para fora. O dono da casa estaria ali na porta antes do meio-dia para questionar a limpeza feita durante todo o sábado, reclamando disso ou daquilo, pensava Gilmar. Sentado na cama box nova e alta, balançava os pés com chinelas velhas olhando-se no espelho… Era até simpático, uma espécie de privilegiado dentre todos os feios. Levantou o braço, sua axila peluda cheirava a suor, mas um cheiro amigável de gente. Levantou, escovou os dentes e olhou o barbeador. Olhou a axila. Depilou-a sentindo inevitáveis, mas suaves cócegas. A lâmina deslizou para o peito e a barriga, eliminando pelos ralos e desceu ao púbis. Percebendo a dificuldade, ensaboou-se e continuou a raspar tudo. Sentado de pernas extremamente abertas no grande vaso sanitário, depilou sua bolsa escrotal, e depois passou às pernas. Minuciosamente depilado, banhou-se e passou hidratante no corpo. Nada parecia tão feio assim em si mesmo. Era magro, usava roupas médias, calçava 40. A barba continuava na cara. Vai crescer. Eu vou deixar e ficar aqueles barbudos massa  da televisão.
Vestiu sua bermuda e calçou as chinelas velhas, deslizando sob o solado do pé com hidratante. Passando pelo quarto viu um par de chinelas brancas, novas, com detalhes em azul. Cinquenta contos na promoção. Nunca as tinha usado. Calçou-as confortavelmente, combinavam com a bermuda. Não tinham tiras, mas uma faixa a cobrir os dedos do pé. Era chic. Pegou um boné e pô-lo à cabeça, vestiu uma regata e saiu andando para a padaria. Alguém parecia ter notado suas pernas depiladas do joelho para baixo, mas ele não deu confiança, sorria comprando pão e voltou para casa. Sua filha, já acordada, o questionou sobre os pelos, ele não a respondeu, apenas sorria tomando café enquanto a menina tagarelava sozinha. O domingo passou com ambos dormindo depois do almoço, e ele combinando com a avó que a deixaria na escola na segunda. Isso aconteceu, acordou cedo. Tinha de ir trabalhar, mas a aula da garota começava uma hora mais cedo do que seu trabalho, e a escola era tão perto que compensava deixá-la a pé mesmo antes das sete e pegar ônibus. Eram cinco da manhã, pois tal da obrigação de se trabalhar o acordava mais cedo sem necessidade. Mais uma sessão de cinco ou mais minutos se olhando no espelho. Olhou-se profundamente e ao ver seu braço refletido no espelho achou-o subitamente bonito. Era forte, esguio. Olhou para os lados e viu uma camiseta velha, azul. Tomou uma tesoura e recortou a malha em forma de faixa. Cortado, o tecido emborcou-se, tornando-se numa espécie de fita canelada. A malha sintética era da cor de turquesa, intenso. Amarrou delicada, mas firmemente no seu braço, à altura do fim do bíceps. Deu um nó deixando duas pontas de uma chave de comprimento, saindo harmonicamente da amarração do nó. Fez pose com o braço na frente do espelho. Estava lindo aos seus olhos, perfeito. Uma satisfação quase sexual o preencheu completamente, e sua adoração a si só foi interrompida por barulhos de sua filha batendo coisas na cozinha. A garota foi flagrada pronta, uniformizada, bastava ser penteada. Enquanto arrumava seus cabelos revoltos, a menina olhava no espelho a fita de pano amarrada no braço do pai, sem entender aquilo. O pai sorria o tempo todo, mas não era para ela, não parecia estar ali. Ela reclamou do negócio, o pai a mandou se aquietar, saíram ambos na rua. Como ela havia se adiantado, poderia levá-la para a escola antes de se arrumar. Seis e meia da manhã e ela já estava na escola, com outros coleguinhas madrugadores. Voltando para casa, Gilmar percebera alguns olhares estranhos para aquele pano amarrado no braço. Mas ele ignorou sumariamente toda e qualquer forma de abordagem, não precisava daquilo, sentia-se bem com seu braço amarrado em turquesa, seus chinelos brancos e suas pernas depiladas.
Pensar aquilo fê-lo sentir muito bem. Era todo sorrisos de uniforme azul escuro e capacete laranja, a manga comprida do uniforme não conseguia esconder a amarração no braço. Um evangélico mais impertinente o abordou dizendo que aquele costume era coisa de macumbeiro, que amarrava corda e palha nos braços para se consagrar aos demônios. Riu tanto na cara do colega que ele saiu sem-graça, sem continuar a pregação. Aqueles dois dias se olhando no espelho, cortando seus pelos e se ataviando ainda que de maneira estranha fizeram-no destravar o riso. E era riso para tudo. Todos o consideraram estranho, a princípio. Todos riam dele junto, ou o taxavam de esquisito. Mas a estranheza nunca fica livre dos estereótipos e é uma questão de tempo até que eles surjam e deem ao estranhamento palavra exatas. Começaram a caluniá-lo de gay e macumbeiro. Gay. Logo ele, riu-se do comentário ouvido na hora do pão com margarina e café, no serviço. A galera nem sequer disfarçou direito quando ele chegou, mas para não perder a prática já comum, balançou a cabeça rindo e mandando a todos caçar o que fazer. Ele era encarregado de uma turma de serventes, exatamente essa, que trabalhava sob sua supervisão. Espalhando a galera, riu-se pensando naquela bobagem. Já em casa, passava horas, se pudesse, se admirando no espelho, olhando o braço amarrado. O pano continuava ali. Lavava-se com o pano no braço. Sentindo um cheiro enjoativo de sabonete, desfez o nó e pô-lo a secar. Olhou o trapo da camiseta cortada e retirou dali outras faixas, umas quatro. Uma delas, ele cortou em três e a trançou, criando um adereço novo, o que usava naquela hora das risadas dos colegas. Não era gay, aliás, nunca duvidou por um instante sequer de seu desejo por mulheres, elas o faziam descontrolar facilmente, elas o excitavam muito. E nem precisavam ser bonitas, ao contrário, preferia as feias como ele. Teve dezenas e dezenas de parceiras sexuais, mas apenas duas namoradas, e a última era a mãe de sua filha. Traumatizado com essa paternidade involuntária, evitava namoros, embora fossem frequentes em sua cama simples e estreita, corpos de garotas ali do bairro. No entanto, não tinha fama de pegador, porque não se exibia, mas sua sanha por sexo o fazia levar para cama mulheres de amigos, colegas, donas de casa cujos maridos não estavam e até mesmo a própria ex-sogra, algumas vezes. Talvez por isso, Gilmar não fosse tão preocupado com calúnia, já que ele não precisava provar nada. Sua fama, no entanto, não chegava ao ouvido de seus julgadores. E, afinal, ele poderia ter mudado de ideia, como comentou o maldoso colega evangélico da pregação do dia anterior.
Ciente da degradação moral de Gilmar, esse colega se aproximou dele no dia seguinte, num dos reservados da obra e pôs-se a olhá-lo. Num impulso, Gilmar sentiu o toque sobre o braço amarrado. A mão do colega estava suada e fria, enquanto o tocava, o evangélico demonstrava sua excitação sexual tocando os órgãos sexuais. Gilmar repeliu a mão com um forte movimento do braço amarrado, que mostrou toda a sua esguia, mas forte musculatura. A cara de Gilmar, sempre sorridente, agora era como uma máscara negra, do negro dos olhos, do cenho fechado, da barba comprida por estar a semanas sem fazer. O outro se assustou, mas continuou firme e deu dois passos em direção a Gilmar, só então que ele vislumbrou uma porta trancada atrás do seu aparente assediador. Gilmar, instintivamente, sem dizer uma palavra, alcançou uma colher de pedreiro bem afiada pelo excesso de uso e a encostou com força no nariz do colega, que perdeu o rebolado e se constrangeu. E não é que o cara não era gay mesmo, deve ter pensado o evangélico. Saiu destravando a porta e todo suado. Seu pânico fê-lo aumentar ainda mais a calúnia a respeito da sexualidade de Gilmar, por medo de ser denunciado entre os colegas. Gilmar sabia de seu segredo, tinha sentido seu toque. Mas não apenas Gilmar, outros ali também. Um tinha cedido e ficaria em silêncio, mas outros não…
As coisas meio que saíram do controle quando a filha de sete anos de Gilmar perguntou se aquela cordinha no braço era coisa de gay. Chateado, ralhou com a moleca e tomou uma decisão. Tinha já marcado um encontro com uma de suas amigas solteiras e sem muita reserva pediu-a em namoro. A incrédula aceitou surpresa, mas parecia carinhosa. No outro dia, estava na casa de Gilmar e lhe fez vários mimos, limpando o chão e organizando a cozinha. Apesar de ser a mais sem-graça de todas as amigas que ele tinha, era a mais oportuna e para o que ele precisava, passava de boa. Pediu que ela fosse conhecer seu local de trabalho. Não era muito distante, apontou para um conjunto massivo de prédios sendo construído num bairro ao lado. Um ônibus e mais três quadras a pé a colocou no meio da obra, recebendo um abraço e um beijo bem cinematográfico de Gilmar diante de todos os colegas. Sentiu-se ridículo e o namoro não durou duas semanas. Pensando que isso teria tido um efeito positivo, o comentário do término na obra, graças a um colega que morava perto da casa da sogra, reavivou a brasa da calúnia, afinal de contas, Gilmar agora cortava o cabelo em cortes modernos, tirava a sobrancelha e continuava a se depilar. A ida dele numa Tenda de Umbanda, a convite de uma de suas ficantes, fê-lo trocar seus paninhos trançados por um belo contra-egum de palha da Costa, cravejado de búzios abertos, lindo, dizia a garota negra, beijando-o. Ele amou aquilo tudo, menos a menina que era muito exigente e ciumenta. Com uma agenda que incluía dar atenção ao outras seis amigas, Gilmar não quis compromisso.
A maledicência da garota, do vizinho, das pessoas ao redor, o bafafá todo reanimou as conversas. Ele se isolou, sem tristezas, por um tempo, mas logo teve de mostrar alguma reação a isso. O descontrole dessas fofocas o rodeou totalmente de forma que ele precisou chamar a atenção de um colega subordinado no serviço. Sem paciência para piadas, depois que alguém deixou em cima de seu monte de tijolos uma trança de pano arco-íris, ele chamou a atenção de um de seus colegas, tendo em uma de suas mãos um tijolo cheio de massa, brandindo a colher suja no ar. Evitando levar a conversa adiante, por medo de perder a razão, passou a protagonizar todo dia, um bate-boca. O evangélico, sempre muito sisudo e calado o olhava de soslaio, e se irritava, pois após a sessão de humilhação, algo o capturava em seus pensamentos e o sorriso voltava ao rosto de Gilmar. Saindo do trabalho, ao chegar à sua casa, notou um barulho atrás de si e mal pôde se desviar de um maciço tijolo que se despedaçou no muro atrás de si, um cara corpulento avançou com uma faca, mas perdeu o equilíbrio, pelo que Gilmar acertou-lhe com o pé a mão e lhe tomou a arma branca. O cara avançou e Gilmar deu-lhe um talho no braço. Sem dizer nada, o cara correu para o escuro. No outro dia, ao chegar no trabalho, em vez de encontrar as conversinhas de sempre, notou que todos comentavam a ausência do evangélico pregador, no outro dia ele aparece com um corte suspeito no braço, no mesmo lugar em que Gilmar acertara o suposto agressor na porta de sua casa. Chamou-o para conversar amigavelmente e pediu que ele parasse. Mas ouviu do cara que veado tinha que morrer. Gilmar disse que não era veado. Talvez o evangélico fosse, pois havia assediado a ele há um tempo. E só ali na obra, já tinha ouvido mais duas ou três conversas de caras que também sido assediados, alguns, inclusive, muito irritados porque o contato inadequado continuava.
Enfurecido, o evangélico quis avançar para Gilmar que assumiu posição de combate com um pedaço de caibro na mão, olhando para os lados, percebeu que os colegas formavam uma roda em torno de si. Gritos, assovios, vaias, xingamentos para Gilmar e para o evangélico. Apontando o caibro para a cara do evangélico, Gilmar gritou bem alto: “eu não sou gay e aqui não sou eu o único a saber disso, vocês sabem quem é o errado aqui!” Suas palavras caíram junto com seu corpo, quando um pedaço de concreto com vergalhão incrustado acertou a cabeça de Gilmar pelas costas. O evangélico aproveitou-se do momento e o chutou ferindo mais ainda a cabeça. O encarregado da obra chegou gritando com todos enquanto o povo se desfazia. O evangélico fugiu, não foi mais visto e o corpo de Gilmar caía inerte sobre um monte de areia lavada. Veio a polícia, a ambulância, levaram-no ao hospital.
Morre, não morre, dias se passaram, uma cirurgia, dores intensas e sono profundo o tempo todo. O traumatismo sério o deixou sem fala coordenada, ao acordar do último estado comatoso, sentindo dor, não podia falar, e parecia não compreender bem o que diziam. Foi para um quarto novo do hospital, ainda sentindo dificuldades em falar e compreender as coisas, em dois ou três dias, já estava melhor e pôde se sentar na cama, a despeito das broncas da enfermagem. A primeira coisa que notou foi a ausência do seu contra-egum, removido durante a hospitalização. Teria que voltar lá no centro. Seu braço pálido continuava o mesmo, apesar de seco, cinzento. Quantos dias ele ficara ali? Ninguém sabia, um colega chegou no outro dia, numa visita tímida e inesperada, dizendo que era quase um mês. Uma enfermeira chegou e trouxe rolos de gaze para refazer o curativo da cabeça, quase bom, ele tomou um rolo para si, torcendo o tecido, fez uma nova amarração no braço, com muita dificuldade, pegou a tesoura da enfermeira, que acedeu com protestos e cortou as pontas dos nós para parecer mais disfarçado e olhou para aquilo com olhos brilhando.
Então, algo pareceu acontecer dentro dele, e a partir daí, começou de novo a falar eloquentemente e a sorrir.

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