Nádegas: não se deve tocar no assunto.
Tarde quente e morosa de sábado, resolvo trabalhar um pouco em casa, mal de professor, aquela profissão que nossos políticos odeiam tanto. Enquanto eu preenchia o diário eletrônico aqui ao computador, eu ouvia um programa do SporTV que meu pai assistia, do outro lado da sala, em que jogadores brasileiros famosos já na casa dos quarenta ou mais comentavam fatos da sua carreira já encerrada. Num dado momento, aparece uma pessoa que se identifica e fala que teve uma treta com um deles. Daí, depois de todo mundo dizer que não conhecia, Caio, comentarista e participante daquele show se identifica e vermelho admite que o problema com o fulano foi porque num jogo, o cara resolveu provocá-lo passando a mão nele.
Os comentários que se seguem a isso têm aquele roteiro clássico de compreensão machista do mundo. Caio tem razão, é claro, ninguém, sob nenhum propósito, deve tocar o corpo dos outros, especialmente nas nádegas, como foi o caso, sem autorização. Num ambiente de trabalho, por exemplo, é caracterizado como abuso, assédio sem relação de poder. Ali, foi malandragem do algoz, não porque ele achou a bunda do Caio atraente, mas porque tinha o objetivo de desestabilizar o jogo e tirar o companheiro de profissão do sério.
E tirou. Caio confessa a todos que podem assistir que guardou rancor por muito tempo, e descontou no cara algum tempo depois, num jogo futuro, dando uma cotovelada nele em campo. O juiz foi condescendente e não o expulsou, mas deveria. O interessante foi ter ouvido de Caio que ele foi zoado no vestiário por ter as nádegas apalpadas em campo e não ter partido para cima e agredido o cara. Inclusive esse foi o conselho post-mortem dado por Denílson, ali, no ar, durante o programa. Caio deveria ter reagido. Sim, ele deveria ter botado a boca no trombone, chamado o juiz, exigido que a ação sofresse algum tipo de advertência.
Mas o problema é que o cara foi capaz de tocar numa parte de Caio que lhe feriu na sua honra de homem. Para todos, independente de como vivem a sua sexualidade, é humilhante ter o corpo apalpado sem permissão, ainda mais numa situação vexatória. Mais ainda numa situação em que qualquer atitude tomada na defesa de si traria consequências graves. Esse era o problema. Caio poderia ter partido para cima do outro e sido expulso, poderia ter sido prejudicado, aliás, a sua cabeça esquentada dentro de campo após ter sido apalpado fez com que fosse substituído pelo técnico (nas palavras do próprio Caio).
Nesse ponto, eu resolvi olhar para a tela da TV. Deixei o sistema escolar aberto por um minuto enquanto eu ouvia a narração do ex-jogador. A presença do seu algoz ali na tela, os comentários dos outros ali e o reviver do momento foi vexatório. Caio, branco que é, estava vermelho, intimidado, cabeça baixa, parecia um periquito australiano (ele já parece em condições normais), enquanto ouvia os outros conversarem sobre o assunto e a rirem-se da sua passividade naquele momento.
Denílson, um exemplo de "maturidade e autocontrole" durante sua carreira, como ele mesmo atestou falando de seu baixo rendimento por causa de festas, mulheres e insubordinação, insistia que Caio deveria ter feito um estardalhaço por causa daquilo, como que a lutar por uma honra masculina ofendida.
Não quero aqui comentar nenhuma forma de expressão de preconceito por parte deles, não houve nada explícito, em nenhum momento Caio foi chamado de gay, mas gostaria de falar sobre o seu sofrimento por sua escolha pacífica durante um jogo importante do estadual do Rio de Janeiro em que ser expulso e prejudicar o time não era alternativa. A angústia de ter sido zoado no vestiário por seus "amigos" após o jogo e ter de confessar. ofendido, ferido na sua honra masculina, que revidou mais tarde em outro jogo, e tentou prejudicar cara com uma cotovelada, deixou o clima pesado no estúdio. Não sei se alguém da produção interveio no momento, mas dirigindo-se ao apresentador Roger e ao jogador inimigo do passado no telão, Caio pediu desculpas pela cotovelada, enquanto o outro pedia desculpas pela infame apalpada nas nádegas, feita com o propósito de deixá-lo desestabilizado e desconcentrado dentro do jogo.
Foi uma conversa desagradável, indigesta, estava servida a torta de climão de sobremesa, o jeito era rir envergonhado, enquanto os outros balançavam a cabeça também encabulados. Caio termina a conversa dizendo que é interessante que a maturidade tenha trazido a ele a clareza de que ele não deveria ter feito aquilo, por isso pedia desculpas.
Mas fazer o quê? Ele sabe e já sabia na sua época que provocações são comuns entre jogadores adversários, porque sempre há muita coisa envolvida: premiações, títulos, condecorações, convocação para a seleção brasileira. Mas tudo isso pode ser colocado em risco se um adversário, no seu corpo-a-corpo necessário à marcação dentro do campo de futebol, resolve apalpar o colega do time oposto para provocar um conflito que resulta em expulsão ou algo pior. Imagino que ele deve ter sido tocado pelo cara que, se teve oportunidade, ainda deve tê-lo provocado verbalmente, insinuando algo. Isso é muito comum. Não perder a cabeça nessas horas é importante. O mais importante, para mim, naquele momento, no entanto, era ter ouvido de Caio que não ligou muito para a provocação, que aquilo acontece em campo e ele sabe muito bem o que ele é ou deixa de ser e um fato lamentável passível de punição, como assediar outras pessoas, por qualquer que seja o motivo, deveria ser evitado no esporte. Mas não ouvi, infelizmente.
Xingar, humilhar, tocar nos corpos indevidamente, injuriar racialmente, agredir fisicamente, tudo isso acontece o tempo todo no futebol. O problema principal de Caio ali foi ter de reviver aquilo tudo e ter sua atitude ponderada repensada por seus colegas de programa e ainda por cima ter sido julgado como passivo, frouxo. Isso, juntamente com uma foto que havia sido mostrada antes, de um antigo recorte de revista em que Caio abraça um ursinho de pelúcia, trouxe mais risos e desconforto para o coitado ali, massacrado pelo peso incomensurável de sua masculinidade de chumbo no peso, mas frágil que nem algodão doce diante de fatos corriqueiros no dia-a-dia. A foto mostra um Caio bem mais jovem abraçando um grande urso de pelúcia, na reportagem do veículo impresso, ele mostra a quantidade de presente de fãs. Os ursos eram dados por garotas que o assediavam onde ia. Embora eu não ache Caio bonito, ele era branco, sorridente, um tipo que se destacou no futebol brasileiro que nunca foi uma fonte de belezas físicas para as fãs. Mas todos os que estavam ali: Caio, Roger, Denílson e Fabiano já tinham passado por esse momento na carreira: assédio de fás, mulheres interessadas onde quer que passassem, dinheiro no bolso e entrada VIP em qualquer lugar que quisessem.
Então por que zoar? Porque é normal no universo masculino. Qualquer coisa que possa ser retirada do contexto e reinterpretada como falta de masculinidade vira um problema sério. Caio e seus colegas são bem desse tempo. O assunto desagradou a ele não por causa do fato de que haveriam de mostrar ali um momento de sua carreira em que ele tenha sido desonesto, revidando uma provocação com agressão física. O pior foi mesmo tê-lo mostrado num momento de vulnerabilidade, talvez deslumbrado pelo carinho de suas fãs, vivendo a felicidade do momento do sucesso, ele nem notou exatamente que aquilo poderia gerar comentários maldosos de quem precisa se afirmar macho questionando a macheza alheia.
Talvez ele nem tenha visto a foto aprovada pela matéria até que ela tenha saído, sei lá. Pior ainda é no minuto adiante alguém aparecer numa tela dizendo que o tinha apalpado nas nádegas.
Caio ficou perturbado ali no set de gravação do programa. Quando Denílson, o próximo da lista, estava a narrar suas aventuras, de um jeito espontâneo, quase ingênuo (como quando admitiu para um colega de time não saber o que era uma "dedicatória" depois de autografar uma foto para uma fã e deixá-la sem o que ela tinha pedido), Caio foi perguntado se ele tinha alguma experiência daquelas para contar. Ele prontamente disse que não e que depois daquela história anterior, "chega de Caio nesse programa".
Por essas e outras que eu vejo que é dificílimo ser homem, heterossexual, coerente e viver no meio de outros homens nesse mundo/país. Não é fácil. Não basta ser, ter certeza do que se é, não basta ser casado, ter filhos e deixar para a posteridade uma carreira de macho consistente, é necessário nunca fazer nada que possa ser trazido do passado para o presente, reinterpretado e questionado de modo jocoso, no caso em que o humor reside no ato de se duvidar da masculinidade da pessoa.
Os comentários que se seguem a isso têm aquele roteiro clássico de compreensão machista do mundo. Caio tem razão, é claro, ninguém, sob nenhum propósito, deve tocar o corpo dos outros, especialmente nas nádegas, como foi o caso, sem autorização. Num ambiente de trabalho, por exemplo, é caracterizado como abuso, assédio sem relação de poder. Ali, foi malandragem do algoz, não porque ele achou a bunda do Caio atraente, mas porque tinha o objetivo de desestabilizar o jogo e tirar o companheiro de profissão do sério.
E tirou. Caio confessa a todos que podem assistir que guardou rancor por muito tempo, e descontou no cara algum tempo depois, num jogo futuro, dando uma cotovelada nele em campo. O juiz foi condescendente e não o expulsou, mas deveria. O interessante foi ter ouvido de Caio que ele foi zoado no vestiário por ter as nádegas apalpadas em campo e não ter partido para cima e agredido o cara. Inclusive esse foi o conselho post-mortem dado por Denílson, ali, no ar, durante o programa. Caio deveria ter reagido. Sim, ele deveria ter botado a boca no trombone, chamado o juiz, exigido que a ação sofresse algum tipo de advertência.
Mas o problema é que o cara foi capaz de tocar numa parte de Caio que lhe feriu na sua honra de homem. Para todos, independente de como vivem a sua sexualidade, é humilhante ter o corpo apalpado sem permissão, ainda mais numa situação vexatória. Mais ainda numa situação em que qualquer atitude tomada na defesa de si traria consequências graves. Esse era o problema. Caio poderia ter partido para cima do outro e sido expulso, poderia ter sido prejudicado, aliás, a sua cabeça esquentada dentro de campo após ter sido apalpado fez com que fosse substituído pelo técnico (nas palavras do próprio Caio).
Nesse ponto, eu resolvi olhar para a tela da TV. Deixei o sistema escolar aberto por um minuto enquanto eu ouvia a narração do ex-jogador. A presença do seu algoz ali na tela, os comentários dos outros ali e o reviver do momento foi vexatório. Caio, branco que é, estava vermelho, intimidado, cabeça baixa, parecia um periquito australiano (ele já parece em condições normais), enquanto ouvia os outros conversarem sobre o assunto e a rirem-se da sua passividade naquele momento.
Denílson, um exemplo de "maturidade e autocontrole" durante sua carreira, como ele mesmo atestou falando de seu baixo rendimento por causa de festas, mulheres e insubordinação, insistia que Caio deveria ter feito um estardalhaço por causa daquilo, como que a lutar por uma honra masculina ofendida.
Não quero aqui comentar nenhuma forma de expressão de preconceito por parte deles, não houve nada explícito, em nenhum momento Caio foi chamado de gay, mas gostaria de falar sobre o seu sofrimento por sua escolha pacífica durante um jogo importante do estadual do Rio de Janeiro em que ser expulso e prejudicar o time não era alternativa. A angústia de ter sido zoado no vestiário por seus "amigos" após o jogo e ter de confessar. ofendido, ferido na sua honra masculina, que revidou mais tarde em outro jogo, e tentou prejudicar cara com uma cotovelada, deixou o clima pesado no estúdio. Não sei se alguém da produção interveio no momento, mas dirigindo-se ao apresentador Roger e ao jogador inimigo do passado no telão, Caio pediu desculpas pela cotovelada, enquanto o outro pedia desculpas pela infame apalpada nas nádegas, feita com o propósito de deixá-lo desestabilizado e desconcentrado dentro do jogo.
Foi uma conversa desagradável, indigesta, estava servida a torta de climão de sobremesa, o jeito era rir envergonhado, enquanto os outros balançavam a cabeça também encabulados. Caio termina a conversa dizendo que é interessante que a maturidade tenha trazido a ele a clareza de que ele não deveria ter feito aquilo, por isso pedia desculpas.
Mas fazer o quê? Ele sabe e já sabia na sua época que provocações são comuns entre jogadores adversários, porque sempre há muita coisa envolvida: premiações, títulos, condecorações, convocação para a seleção brasileira. Mas tudo isso pode ser colocado em risco se um adversário, no seu corpo-a-corpo necessário à marcação dentro do campo de futebol, resolve apalpar o colega do time oposto para provocar um conflito que resulta em expulsão ou algo pior. Imagino que ele deve ter sido tocado pelo cara que, se teve oportunidade, ainda deve tê-lo provocado verbalmente, insinuando algo. Isso é muito comum. Não perder a cabeça nessas horas é importante. O mais importante, para mim, naquele momento, no entanto, era ter ouvido de Caio que não ligou muito para a provocação, que aquilo acontece em campo e ele sabe muito bem o que ele é ou deixa de ser e um fato lamentável passível de punição, como assediar outras pessoas, por qualquer que seja o motivo, deveria ser evitado no esporte. Mas não ouvi, infelizmente.
Xingar, humilhar, tocar nos corpos indevidamente, injuriar racialmente, agredir fisicamente, tudo isso acontece o tempo todo no futebol. O problema principal de Caio ali foi ter de reviver aquilo tudo e ter sua atitude ponderada repensada por seus colegas de programa e ainda por cima ter sido julgado como passivo, frouxo. Isso, juntamente com uma foto que havia sido mostrada antes, de um antigo recorte de revista em que Caio abraça um ursinho de pelúcia, trouxe mais risos e desconforto para o coitado ali, massacrado pelo peso incomensurável de sua masculinidade de chumbo no peso, mas frágil que nem algodão doce diante de fatos corriqueiros no dia-a-dia. A foto mostra um Caio bem mais jovem abraçando um grande urso de pelúcia, na reportagem do veículo impresso, ele mostra a quantidade de presente de fãs. Os ursos eram dados por garotas que o assediavam onde ia. Embora eu não ache Caio bonito, ele era branco, sorridente, um tipo que se destacou no futebol brasileiro que nunca foi uma fonte de belezas físicas para as fãs. Mas todos os que estavam ali: Caio, Roger, Denílson e Fabiano já tinham passado por esse momento na carreira: assédio de fás, mulheres interessadas onde quer que passassem, dinheiro no bolso e entrada VIP em qualquer lugar que quisessem.
Então por que zoar? Porque é normal no universo masculino. Qualquer coisa que possa ser retirada do contexto e reinterpretada como falta de masculinidade vira um problema sério. Caio e seus colegas são bem desse tempo. O assunto desagradou a ele não por causa do fato de que haveriam de mostrar ali um momento de sua carreira em que ele tenha sido desonesto, revidando uma provocação com agressão física. O pior foi mesmo tê-lo mostrado num momento de vulnerabilidade, talvez deslumbrado pelo carinho de suas fãs, vivendo a felicidade do momento do sucesso, ele nem notou exatamente que aquilo poderia gerar comentários maldosos de quem precisa se afirmar macho questionando a macheza alheia.
Talvez ele nem tenha visto a foto aprovada pela matéria até que ela tenha saído, sei lá. Pior ainda é no minuto adiante alguém aparecer numa tela dizendo que o tinha apalpado nas nádegas.
Caio ficou perturbado ali no set de gravação do programa. Quando Denílson, o próximo da lista, estava a narrar suas aventuras, de um jeito espontâneo, quase ingênuo (como quando admitiu para um colega de time não saber o que era uma "dedicatória" depois de autografar uma foto para uma fã e deixá-la sem o que ela tinha pedido), Caio foi perguntado se ele tinha alguma experiência daquelas para contar. Ele prontamente disse que não e que depois daquela história anterior, "chega de Caio nesse programa".
Por essas e outras que eu vejo que é dificílimo ser homem, heterossexual, coerente e viver no meio de outros homens nesse mundo/país. Não é fácil. Não basta ser, ter certeza do que se é, não basta ser casado, ter filhos e deixar para a posteridade uma carreira de macho consistente, é necessário nunca fazer nada que possa ser trazido do passado para o presente, reinterpretado e questionado de modo jocoso, no caso em que o humor reside no ato de se duvidar da masculinidade da pessoa.
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